Por: Capital 95 | 2026-09-08
Péricles já não precisa convencer ninguém de que é uma das grandes vozes da música brasileira. Ainda assim, na noite de segunda-feira, 7 de setembro, ele encontrou no Rock in Rio o palco perfeito para lembrar ao país uma verdade que, às vezes, o próprio mercado insiste em esquecer: Péricles é, hoje, a voz mais potente do Brasil.
No Palco Sunset, o cantor deixou o samba e o pagode em segundo plano para mergulhar de cabeça na soul music com “Péricles Canta Motown”. E o resultado foi muito maior do que uma simples homenagem. Péricles mostrou domínio vocal, afinação, extensão e, principalmente, uma segurança que poucos artistas conseguem sustentar ao vivo. Ao revisitar Michael Jackson, The Jackson 5, Stevie Wonder, Diana Ross, The Temptations e Lionel Richie, ele não pareceu um intérprete tentando reproduzir gigantes. Pareceu um cantor pertencente à mesma linhagem vocal.
Péricles não imita. Ele interpreta
Essa diferença foi decisiva. “ABC”, “I Want You Back” e “I’ll Be There”, do The Jackson 5, exigem precisão e personalidade. Já “My Girl”, do The Temptations, pede outra textura. “All Night Long (All Night)”, de Lionel Richie, exige balanço e presença. Péricles transitou por todas essas referências sem perder a própria identidade.
Além disso, o figurino ajudou a construir a narrativa. Primeiro, a capa estampada com os rostos dos homenageados. Depois, o terno prateado, os óculos escuros e o chapéu. Visualmente, havia um personagem. Vocalmente, porém, não havia fantasia. Era Péricles em sua melhor forma, usando um repertório sofisticado para exibir aquilo que talvez seja seu maior patrimônio: uma voz que impressiona pela força sem depender de truques.
E aqui está o ponto que merece ser dito sem receio de exagero: no Brasil atual, poucos cantores conseguem entregar ao vivo a potência que Péricles oferece. Menos ainda conseguem fazer isso sem transformar técnica em exibicionismo. Ele canta alto porque pode, sustenta notas porque domina o instrumento e, sobretudo, sabe quando recuar. A potência, nele, não é um recurso isolado. É parte da interpretação.
Rock in Rio virou uma prova de fogo
O mais interessante foi justamente vê-lo fora da zona de conforto. Péricles poderia ter escolhido um repertório seguro, conhecido pelo público do pagode, e provocado uma reação previsível. Preferiu o risco. Colocou sua voz diante de clássicos da música negra americana e aceitou uma comparação inevitável com artistas que entraram para a história.
O resultado foi revelador. O público recebeu cada música como um grande baile, mas também testemunhou uma espécie de teste de resistência vocal. Péricles atravessou diferentes estilos, timbres e registros com uma naturalidade que desmontou qualquer argumento de que seu talento estaria restrito ao samba e ao pagode.
Músicos deram o nome!
A banda e os backing vocals tiveram papel importante na construção do espetáculo. Tanto que Péricles fez questão de agradecer aos músicos: “Por favor, muito barulho para a minha banda”. Em seguida, celebrou o momento: “Que delícia viver esse momento, Rock in Rio. Obrigado”. Porém, por mais competente que fosse a estrutura, era a voz dele que conduzia tudo.
No fim, a resposta veio do público. “Uh, uh, é Periclão” virou o coro que logo encerrou uma apresentação que funcionou como consagração. Péricles não apenas levou Motown para o Rock in Rio. Levou consigo uma demonstração rara de maturidade artística.
E talvez esteja aí a grande questão: durante muito tempo, Péricles foi tratado como “o Rei da Voz” do pagode. Depois dessa apresentação, o título parece pequeno. O cantor mostrou que sua voz não pertence a um gênero específico. Ela pertence a uma categoria muito mais difícil de alcançar: a dos grandes intérpretes.
No Rock in Rio, Péricles cantou Motown. Para quem estava atento, entretanto, o espetáculo revelou outra coisa: o Brasil tem, neste momento, um dos seus maiores cantores no auge da capacidade vocal — e ele atende pelo nome de Péricles.
